IMPACTO - 03-07-2020

(IMPACTO) #1

18
3 DE JULHO DE 2020


Novas Tecnologias para


uma nova Educação


MÁRCIA MOLINA
Jornalista
Q:@marciamolinafonseca
E Marcia Molina Fonseca
1 impactonoticias.com.br/marcia

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IMPACTONOTICIAS.COM.BR/

ACESSE IMPACTO+


DAYANE MILANE
[email protected]


A queima de fogos de artifício é
uma tradição durante as festas. Seu
colorido e barulho estrondoso ani-
mam as comemorações. Porém, a
alegria que eles representam não é
compartilhada por todos. Pessoas
com Transtorno do Espectro Autista,
o TEA, são afetadas de forma muito
negativa, por conta da hipersensibili-
dade de sua visão e audição.
O problema acontece, pois, pes-
soas com este transtorno apresentam
uma hipersensibilidade sensorial aos
estímulos do ambiente. O fator é, in-
clusive, um dos critérios levados em
conta na hora de fechar o diagnóstico.
Um latido de cachorro ou uma
buzina de caminhão, por exemplo,
podem ser suficientes para causar
pânico. É como se eles escutassem
todos os sons do ambiente de uma só
vez sem focar a atenção em nenhum
deles, provocando uma sobrecarga
naquele sentido.
Todos estes fatores atingem di-
retamente a vida de João Fernando,
jovem autista de 24 anos, morador de
Osvaldo Cruz. Segundo a professora
Branca Romanini, mãe do rapaz es-
pecial, desde muito pequeno seu fi-
lho teve sensibilidade ao barulho. Ela
conta que sempre evitou levar o João
em locais de barulho e aglomeração,
porém não consegue protegê-lo do
barulho dos fogos de artifício, já que,
com a audição aguçada, o rapaz ouve
o barulho dos fogos, mesmo de muito
longe.
“Muitas vezes nós nem percebe-
mos o barulho, mas ele rapidamente
colocava os dedos nos ouvidos e co-
meça a gritar. O João entra em pâni-
co”, diz a mãe.
Uma alternativa encontrada por
ela era colocá-lo no carro e procurar
locais desertos, longe do barulho.
Por isso, o rapaz entendeu que todas
as vezes que entrava no carro, estava
seguro.
Por conta dos fogos, João Fernan-
do entrou em depressão, e associou
o carro como porto seguro. Ele pas-


sou 11 dias dentro do veículo. A mãe
conta que nem mesmo os remédios e
terapia foi o suficiente para tirar João
de dentro do veículo. Segundo ela, o
jovem só conseguiu sair com a ajuda
de profissionais, que o internaram em
um hospital psiquiátrico.
“A orientação que recebemos dos
médicos do hospital foi para que não
o colocasse no carro por conta dos fo-
gos. Os médicos pediram para mantê-
-lo dentro de casa”, conta.
Desesperada, todas as vezes que
sabia que teria fogos, Branca levava
o filho na Santa Casa. Lá, ele tomava
medicamentos tranquilizantes, po-
rém, mesmo assim, ele se agitava e as
reações eram muito fortes.
“Ele se escondia em baixo da
cama, gritava, entrava no chuveiro,
porque a água acalma o autista, mas
nada adiantava”, comenta a mãe.

PROJETO DE LEI
Segundo Branca, o vereador Luís
Ricardo Spada Bonfim, o Bitinha,
presenciou uma das crises do João. O
parlamentar se interessou pela his-
tória do rapaz e, comovido, resolveu
ajudar. Em parceria com o também
vereador Lucas Canola Hirano, ela-
borou o projeto ‘Lei João Fernando’,
nº 12/2020.

No dia 25 de junho, em sessão ex-
traordinária na Câmara de Osvaldo
Cruz, a proposta foi aprovada pela
maioria dos parlamentares. Na tarde
de quarta-feira, 1º de julho, o prefeito
de Osvaldo Cruz Edmar Mazuca-
to, sancionou a lei, e o município é o
primeiro da região a aprovar lei que
regulamenta soltura de fogos de arti-
fício com barulho.

VITÓRIA
“Eu acreditava que o prefeito iria
sancionar o projeto para se tornar lei.
Há algum tempo o prefeito Edmar
não solta fogos com barulho nas co-
memorações da cidade. Ele sabe dos
problemas que as crianças especiais
têm com este tipo de fogos. Meu filho
representa todas as pessoas especiais,
pessoas acamadas, idosos e os ani-
mais que também tem sensibilidade
aos fogos. O João veio para represen-
tar toda esta população. Gostaria que
agradecer a população de Osvaldo
Cruz pelo carinho com o meu filho.
Também faço um apelo para os pre-
feitos e vereadores das cidades da re-
gião para que sigam o exemplo de Os-
valdo Cruz. É pela vida, pela saúde.
Não é um capricho de mãe. O barulho
é muito prejudicial, desestabiliza a
criança”, conclui Branca Romanini.

O isolamento social decretado em função
dessa pandemia da Covid-19 gerou inúmeras
mudanças. Esse nosso mundo real, físico, que
vinha mudando aos poucos, de repente mudou
definitivamente. Na semana em que o Governo
Estadual divulga o Plano de Educação para São
Paulo, que patenteia a diminuição do protago-
nismo do ensino presencial, é bom refletir sobre
o assunto.
Nada fácil para os famosos “jurássicos”.
Eu, nesse meio. E como professora, vinha já
me adequando a uma série de quesitos sobre as
Metodologias Ativas e Tecnologias da Informa-
ção e Comunicação aplicadas à educação. Mas
apenas isso não era suficiente. Foi preciso, em
poucas semanas, aprendermos a lidar com no-
vas plataformas de ensino, desenvolvermos as
habilidades para aulas síncronas e assíncronas
e entrarmos nesse novo mundo da educação a
distância. Até porque ela chegou para ficar.
Daí ser fundamental conhecer um pouco
mais e melhor sobre esse novo estilo de lecionar.
Que na verdade não é tão novo assim e vem sen-
do discutido há décadas.
Ao estudar fomos obrigados a repensar essa
nova relação professor/aluno. Quem são nossos
alunos, como se comportam? Qual é a relação
desses jovens com a informação e com o conhe-
cimento?
Na verdade, o papel do professor que ensina-
va o “passo a passo” se modificou com as Meto-
dologias Ativas e Ambientes Virtuais de Apren-
dizagem. Há agora um sentido colaborativo
entre docentes e discentes. A busca pelo conhe-
cimento deve partir de cada indivíduo. A infinita
facilidade e disponibilidade de informações na
web transformam o aprendiz em sujeitos ativos,
interagindo com professores mediadores.
São muitos os nossos desafios já que bons
métodos ativos possuem como características
incentivar debates e construção coletiva, traba-
lhar com diversidade de estratégia e de recursos,
ser interdisciplinar, ser desafiador, ser intera-
tivo, explorar diferentes gêneros textuais, tra-
balhar com diferentes linguagens, incentivar a
comunicação, ...ufa!
Mas também nossos alunos devem se adap-
tar a esse novo modelo de aprendizagem. E na
verdade todos temos que nos reeducar. Nessa
nova era a informação é relevante, mas não tan-
to quanto o conhecimento. E só o conhecimento
real pode levar à visão crítica da realidade possi-
bilitando análises de situações pelos mais diver-
sos ângulos e de forma profunda evitando assim
conclusões equivocadas e ações desastrosas.
O mundo impõe novos desafios. A Educação
impõe a nós professores desafios ainda maiores.
Somos os responsáveis por educar nessa nova
era. Se o Mundo mudou, é preciso mudar com
ele. Porque realmente, ele nunca mais será o
mesmo. E nós professores teremos um papel
fundamental nesse novo normal.

MAIS SOBRE O ASSUNTO?
Dicas de leitura: “Metodologias Ativas
para uma Educação Inovadora”, de Lilian
Bacich e José Moran; “A Sala de Aula Inova-
dora”, de Fausto Camargo e Thuinie Daros.
Ouça o Podcast “Paideia Digital” sobre Edu-
cação, em que entrevisto a pedagoga Silvia
Almeida sobre esse tema.

Branca Romanini
com o filho João
Fernando | Foto:
Arquivo Pessoal

Em março do ano pas-
sado, uma proposta similar
de Osvaldo Cruz foi rejeita-
da pela Câmara de Ada-
mantina. O Projeto de Lei
Nº 56/18, de Acácio Rocha
(DEM), previa regulamen-
tação na soltura de fogos
de artifício barulhentos em
todo o Município, permi-
tindo somente aqueles que
provoquem ruídos abaixo
dos 65 decibéis.
“A medida atende uma
reivindicação de grande

Proposta similar foi


rejeitada em Adamantina


NO ANO PASSADO


parte da comunidade local,
que se manifesta, rotinei-
ramente, contrária à ado-
ção de fogos ruidosos em
atividades isoladas ou ce-
rimônias festivas públicas
e/ou privadas, que causam
prejuízos, transtornos e pâ-
nico a animais, e fragilizam
ainda mais os idosos, aca-
mados, deficientes e outros
que estejam sob recupera-
ção”, disse Acácio Rocha,
na época de tramitação da
proposta.

João Fernando, jovem autista de 24 anos,


motiva Osvaldo Cruz a proibir soltura de


fogos de artifício com barulho


O projeto foi sancionado pelo prefeito de Osvaldo Cruz, Edmar Mazucato. A cidade é primeira


da região a aprovar lei que regulamenta soltura de fogos de artifício com barulho

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